No ano em que tivemos mudanças significativas no Blog de Ouro (como a inclusão de cinco filmes a mais na categoria principal e um prêmio dedicado ao cinema nacional), o cinema de Tarantino saiu como o grande vencedor dessa terceira edição. Bastardos Inglórios, que já havia quebrado o recorde do máximo de indicações para um longa (11), não só venceu as categorias de melhor filme e direção (algo também alcançado por Cartas de Iwo Jima e Sangue Negro) como se torna o maior vencedor do Blog de Ouro até esse momento, com sete prêmios ao total. O longa ainda triunfou nas categorias de melhor ator coadjuvante (Christoph Waltz), atriz coadjuvante (Mélanie Laurent), roteiro original, elenco e figurino.
Outros grandes indicados nesse ano, Avatar e O Curioso Caso de Benjamin Button dominaram o segmento técnico com três prêmios cada. O primeiro foi considerado o melhor nas categorias de montagem, efeitos visuais e som, enquanto que o longa de David Fincher foi eleito como a melhor fotografia, direção de arte e maquiagem do ano. A Pixar novamente surpreendeu e pelo terceiro ano levou a melhor na categoria de animação, além da premiada trilha de Michael Giacchino (o segundo prêmio para o compositor, que venceu por Ratatouille na primeira edição).
Os demais filmes premiados foram Dúvida (melhor atriz para Meryl Streep), Milk (melhor ator – Sean Penn), Deixa Ela Entrar (roteiro adaptado), À Deriva (filme nacional) e O Lutador (canção original – “The Wrestler”). Abaixo, o top 10 de 2009 oficial da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos, realizado a partir dos votos na segunda fase. Agradecemos pela participação de todos e também ao crítico Pablo Villaça pela colaboração. Até o Blog de Ouro 2011!
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BASTARDOS INGLÓRIOS / de Quentin Tarantino
Para reconhecer Bastardos Inglórios como um dos melhores filme de 2009, nem é preciso que você seja necessariamente grande fã do cinema de Tarantino. Mesmo assim, para quem conhece (e admira) outros de seus trabalhos, sem dúvida é uma experiência ainda mais recompensadora. E após entregar clássicos modernos como Cães de Aluguel e Pulp Fiction, produções que, em maior ou menor grau, influenciaram na maneira de fazer cinema, pouco poderia ser exigido do diretor. Mas, ao contrário do que poderia se imaginar, o mais recente longa não é apenas um dos melhores da década, como também já promete ser um dos mais influentes. Bastardos Inglórios é um filme obrigatório! (Vinícius Pereira • Ibertson Medeiros)

MERYL STREEP / Dúvida
A adaptação da peça Doubt para o cinema obteve um resultado de tirar o fôlego pelo poder dos desempenhos principais e como estes correspondem ao vigor de sua narrativa. Meryl Streep, que aqui agarra o seu papel com uma firmeza como há muito não se via, é a Irmã Aloysius Beauvier, que no ano de 1964 comprou uma briga intensa com um padre dentro da escola onde atua como diretora por anos. À margem do roteiro teatral e apoiada em diálogos fortes, Streep constrói com intensidade uma personagem que ao mesmo tempo em que passa toda a sua convicção, contribui para aumentar a dúvida que corrói também o espectador. (Alex Gonçalves • Marcel Gois)

SEAN PENN / Milk – A Voz da Igualdade
Sean Penn é um dos grandes atores que o cinema contemporâneo já viu. Em sua carreira, fez de tudo um pouco e ainda já se aventurou atrás das câmeras. Penso que um bom ator é aquele que está sempre se reinventando. Foi exatamente o que Penn fez em sua carreira e agora com Milk. Quando se pensava que o ator não poderia fazer algo mais diferente, eis que ele resolve entrar de corpo e alma na pele do político gay Harvey Milk. Em atuação brilhante, retrata Milk com vigor natural e emblemático. Os trejeitos, os tiques, a fala e o realce emocional são características que soam sempre sinceras, nunca definhando diante de qualquer caricatura. Penn traz Harvey Milk de volta à vida. (Matheus Pannebecker • Wally Soares)

BASTARDOS INGLÓRIOS / Quentin Tarantino
Já vimos filmes de guerra de todos os tipos e tenho certeza que o Tarantino viu muito mais. Há tempos querendo fazer seu próprio exemplar do gênero, Tarantino, que é um dos cineastas mais originais da atualidade, não cairia na tentação de montar seu filme à imagem e semelhança de O Resgate do Soldado Ryan, como todas as outras produções do gênero fazem desde então. E já estava mais do que na hora de alguém injetar um pouco de ânimo no cinema bélico. Carregado de humor, vigor, paixão e no total controle de seu ofício, o diretor mostra que seu compromisso não é com a História da humanidade, mas com a história da sétima arte. O diretor de Pulp Fiction e Kill Bill relembra que ir ao cinema é, acima de tudo, um evento. Cru, provocador e agressivo. Assim é Bastardos Inglórios, um clássico de época. (Otavio Almeida • Fábio Barreto)

DEIXA ELA ENTRAR / John Ajvide Lindqvist
Provavelmente a mais bela história de amor, amizade, devoção, do que diabos queiram chamar a relação entre Oskar e Eli. Deixa Ela Entrar é um dos melhores filmes sobre vampiros do cinema, uma das mais tocantes histórias sobre crianças já feitas, um mar de citações ou misturebas… que seja, quaisquer desses adjetivos “mais isso” ou “mais aquilo”. Deixa Ela Entrar é arte, esconde a monstruosidade da sua história (o final é mais assustador que romântico) na poesia presente em cada minuto. É uma bela surpresa que une horror, romance e comédia, muitas vezes numa única cena. Não há nada aqui que lembre a onda pop vista nas obras vampirescas recentes. Triste, belo e assustador. (Fabio Rockenbach • Gustavo Bezerra • Romeika Cortez)

BASTARDOS INGLÓRIOS / Quentin Tarantino
Em Bastardos Inglórios os diálogos são fantásticos, a tensão é constante e sua violência é uma forma de extravasar tudo isso. Não é engraçado e não nos sentimos identificados com a sede de vingança dos judeus, mas entendemos a trajetória, principalmente da garota que viu sua família ser assassinada tão cruelmente e viu a oportunidade de ter toda a cúpula nazista em seu pequeno cinema, incluindo Hitler. Apesar de se basear em fatos históricos, o filme não é fiel a realidade, nem aos acontecimentos da II Guerra. Mandando às favas a solenidade reverente comumente adotada em abordagens fílmicas do tema, Tarantino articula um subversivo banho de sangue que dá vazão ao ímpeto expiatório da plateia. Temos que aplaudir a sua ousadia. (Amanda Aouad • Gustavo Razera)

MÉLANIE LAURENT / Bastardos Inglórios
Debruçar elogios sobre a performance de Mélanie Laurent é inútil, porque qualquer um, cinéfilo ou não, saberia identificar seu talento em Bastardos Inglórios. No papel da judia que escapou da morte e administra um cinema que recebeu de herança dos tios, a atriz francesa encontra um tom magnânimo ao dosar amargura, ternura e claro, nutrir os mais diabólicos desejos de vingança. Laurent tranformou Shosanna em uma mulher que preferiu fugir do medo, mas que na falta de possibilidades resolveu enfrentar os pesadelos. Torna a personagem ainda mais interessante que sua própria história poderia ser. (Weiner Gomes • Luciano Lima)

CHRISTOPH WALTZ / Bastardos Inglórios
Quem se destaca de fato em Bastardos Inglórios é Christoph Waltz. Sempre transparecendo um jogo psicológico nos interrogatórios, ele criou um sujeito dúbio cuja voz, às vezes melancólica, deixa a sua impressão de ironia e sarcasmo em tudo que fala, sempre se portando com tamanha superioridade em relação àquele que está na sua frente. A sua maneira de se comportar, o seu jeito de falar, tudo criou certa tensão para o filme. Waltz eterniza a imagem de um oficial nazista intelectualmente superior a qualquer outro – sendo impecável em todos os movimentos do seu personagem. (Vinicius Silva • Pedro Henrique Gomes)

AVATAR / John Refoua, Stephen E. Rivkin e James Cameron
“Assistindo Avatar me senti fazendo história”. Por mais batida que essa frase possa estar ela é a pura verdade. Doze anos após Titanic, Cameron finalmente lança mais uma megalomania. O filme consegue ter o mesmo impacto para essa década que o seu antecessor teve na de 90, o abuso de efeitos especiais e suas maravilhas em meio a uma história de amor. Cada frame é memorável, é belo. Então é impossível escolher uma melhor cena, pois todas elas ficam gravadas na sua mente. Ainda que lembremos de Matrix no contexto de se conectar a um computador para comandar as situações, vi com originalidade os conceitos empregados à película. O filme contagia do início ao fim. (Alex Pizziolo • Lucas Garcia • Robson Saldanha)

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON / Claudio Miranda
Aliado ao poder estético do longa está a forma como o fotógrafo Claudio Miranda capta toda esta beleza. São tomadas virtuosas que ajudam a compor toda a magia da obra de David Fincher. As poéticas cenas não poderiam ser tão belas sem a mão dele e seus icônicos enquadramentos, além do competente trabalho com filtro onde consegue, com o passar dos anos da vida de Button, nos mostrar com gama de cores diferentes seus sentimentos. Além do visível tratamento que David Fincher dá à estética de seus filmes, Benjamin Button e a sua missão conceitual deve ao trabalho impecável de Miranda. A fotografia é simplesmente perfeita. (Jonathan Rodrigues • Felipe Rocha • Yuri Dias)

UP – ALTAS AVENTURAS / de Peter Docter
Quando se é jovem, é natural que se façam inúmeros planos para o futuro. O desejo é o de viver enormes e excitantes aventuras. Tolos nós que nos esquecemos de que a vida já é, por si só, uma grande aventura, repleta de responsabilidades e de momentos cruciais. Up conquista porque fala sobre pontos muito interessantes. O principal deles, talvez, diz respeito ao fato de que nos mostra que devemos estar sempre de coração e mente abertos para as experiências que vivemos. Cada dia, cada ato, por mais bobo, frívolo e esquecível que seja, é uma nova experiência, um novo conhecimento, uma nova aventura. Mais uma vez a Pixar merece uma salva de palmas. (Kamila Azevedo • Marcus Vinícius)

À DERIVA / de Heitor Dhalia
O maior mérito de À Deriva é dar consistência a todos os personagens, mesmo os secundários, pois a relação da protagonista com todos eles é o que enriquece o filme. Nada soa forçado e há ainda o alívio de um roteiro que trata o espectador com a maturidade necessária, mesmo através da história de uma jovem iniciando o crescimento como mulher. Ver um filme tão bem acabado como este é a certeza que Dhalia nos entrega uma obra madura, delicada e introspectiva no nível certo para se comunicar com a platéia sem buscar o âmago do conflito na narrativa, mas tão rico em sua construção que é o bastante para a compreensão do subtexto. (Rafael Carvalho • Pedro Tavares)